A Influência da Desestruturação Familiar no Comportamento Desviante de Jovens de Rua em Luanda
The Influence of Family Breakdown on the Deviant Behavior of Street Youth in Luanda
La Influencia de la Desintegración Familiar en el Comportamiento Desviado de los Jóvenes de la Calle en Luanda
Autores: Isabel Figueira Ngola
Licenciada em Ciências Criminais
Instituto Superior Politécnico de Ciências e Tecnologia
e-mail: isabelfigueiran@gmail.com
Carlos Rafael Figueredo Verdecia
PhD. Em Ciências Pedagógicas
Instituto Superior Politécnico de Ciências e Tecnologia
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6104-5980
e-mail: dir.ciencia.insutec@gmail.com
Artigo original
RESUMO
Este artigo analisa a influência da desestruturação familiar no comportamento desviante de jovens em situação de rua no Bairro Rasta, em Luanda. A pesquisa, de natureza aplicada e descritiva, utilizou uma abordagem quantitativa com base em questionários aplicados a 30 jovens entre 16 e 24 anos. Os resultados indicam que factores como ausência de figuras parentais, violência doméstica e condições socioeconómicas precárias contribuem significativamente para a adopção de comportamentos desviantes, como uso de drogas e envolvimento em gangues. O estudo propõe intervenções multidisciplinares, como programas de apoio familiar, capacitação profissional e políticas públicas integradas, para mitigar os efeitos da desestruturação familiar e promover a reintegração social destes jovens.
Palavras Chave: Bairro Rasta; Comportamento Desviante; Desestruturação Familiar; Jovens de Rua.
SUMMARY
This article analyzes the influence of family breakdown on the deviant behavior of homeless youth in the Rasta neighborhood of Luanda. The research, of an applied and descriptive nature, used a quantitative approach based on questionnaires applied to 30 young people between 16 and 24 years old. The results indicate that factors such as the absence of parental figures, domestic violence and precarious socioeconomic conditions contribute significantly to the adoption of deviant behaviors, such as drug use and gang involvement. The study proposes multidisciplinary interventions, such as family support programs, professional training and integrated public policies, to mitigate the effects of family breakdown and promote the social reintegration of these young people.
Keywords: Rasta neighborhood; Deviant Behavior; Family Breakdown; Street Youth.
RESUMEN
Este artículo analiza la influencia de la desintegración familiar en el comportamiento desviado de jóvenes sin hogar en el barrio Rasta de Luanda. La investigación, de carácter aplicada y descriptiva, utilizó un enfoque cuantitativo basado en cuestionarios aplicados a 30 jóvenes entre 16 y 24 años. Los resultados indican que factores como la ausencia de figuras parentales, la violencia doméstica y las condiciones socioeconómicas precarias contribuyen significativamente a la adopción de comportamientos desviados, como el consumo de drogas y la participación en pandillas. El estudio propone intervenciones multidisciplinarias, como programas de apoyo familiar, formación profesional y políticas públicas integradas, para mitigar los efectos de la desintegración familiar y promover la reinserción social de estos jóvenes.
Palabras clave: Barrio Rasta; Comportamiento desviado; Desintegración familiar; Juventud de la calle.
INTRODUÇÃO
A desestruturação familiar é um fenómeno social complexo, frequentemente associado ao surgimento de comportamentos desviantes, especialmente entre jovens em situação de vulnerabilidade. Em contextos urbanos marcados por desigualdades socioeconómicas, a fragilização dos laços familiares pode contribuir para o aumento do número de jovens em situação de rua, expostos a riscos como violência, criminalidade e exclusão social. É essencial compreender a relação entre desestruturação familiar e comportamento desviante para subsidiar políticas públicas e intervenções sociais voltadas à prevenção da criminalidade e promoção da inclusão social.
Em Angola, particularmente em Luanda, a rápida urbanização e os impactos de décadas de conflito civil agravaram problemas como pobreza, desemprego e desagregação familiar. No Bairro Rasta, uma das zonas mais populosas e carentes da capital, a falta de infra-estrutura e oportunidades económicas contribui para a marginalização de jovens, muitos dos quais acabam vivendo nas ruas. A desestruturação familiar — causada por abandono, violência doméstica ou condições precárias — surge como um factor determinante na génese de comportamentos desviantes, incluindo envolvimento em actividades ilícitas e uso de drogas.
Este estudo justifica-se pela necessidade de compreender os factores que levam jovens do Bairro Rasta a adoptarem comportamentos desviantes, com foco na desestruturação familiar como elemento central. Apesar de a literatura internacional destacar a relação entre família e comportamento desviante, há uma escassez de pesquisas que abordem essa temática no contexto angolano, especialmente em áreas urbanas periféricas como o Bairro Rasta. Além disso, os dados levantados junto a jovens de rua podem fornecer insights valiosos para a formulação de políticas públicas e programas sociais que visem a prevenção da criminalidade e a promoção da inclusão social.
Estudos anteriores realizados em outros contextos africanos e latino-americanos têm demonstrado que a desestruturação familiar—caracterizada pela ausência de figuras parentais, conflitos domésticos e condições socioeconómicas adversas—está fortemente associada ao aumento de comportamentos desviantes entre jovens. No entanto, no contexto angolano, especialmente em Luanda, ainda há uma lacuna significativa de pesquisas que explorem essa relação de forma sistemática. Este estudo busca preencher essa lacuna, utilizando dados colectados directamente em jovens de rua do Bairro Rasta, para analisar a relação entre desestruturação familiar e comportamento criminal a partir de jovens em situação de rua do Bairro referido buscando entender de que forma as famílias influenciam no surgimento e perpetuação de comportamentos criminais.
Desestruturação Familiar e suas Manifestações
A ideia de a família desestruturada apresentada neste artigo diz respeito aos comportamentos dos integrantes, como violência sofrida ou praticada e alcoolismo, sendo possível incluir outros vícios e atitudes que atrapalham o bem-estar das pessoas que pertencem a determinado grupo familiar.
A desestruturação não ocorre pela falta de uma das figuras, mas pela perda da função de cuidadora em detrimento dos desvios, como o alcoolismo, a dependência química ou transtornos mentais, prostituição e outros (Gonçalves, 2019).
A desestruturação familiar é influenciada por uma série de factores interconectados que afectam directamente o equilíbrio emocional e social dos membros da família, reflectindo-se, muitas vezes, no comportamento criminal. Entre os principais factores estão o divórcio, a separação e a ausência de uma figura parental estável, que resultam em lacunas no desenvolvimento emocional e social das crianças, dificultando a internalização de valores éticos e normas de convivência (Inaculo, 2023).
O abuso de substâncias como álcool e drogas, frequentemente presente em lares desestruturados, agrava ainda mais a situação, promovendo negligência parental e instabilidade financeira, ambos factores que aumentam a vulnerabilidade das crianças e adolescentes ao envolvimento em actos criminosos (Edla, 2019).
Outros factores são a violência doméstica, o abuso de substâncias como álcool e drogas e a pobreza e marginalização social. Conflitos constantes, agressões físicas e psicológicas, são condicionadas muitas vezes pelo consumo excessivo de álcool e outras drogas, a escassez de recursos e oportunidades também fomenta a busca de soluções imediatas e muitas vezes ilícitas, enquanto a falta de supervisão e apoio emocional por parte dos pais intensifica o risco de associações com grupos criminosos que oferecem um falso senso de pertencimento.
Desestruturação Familiar e Comportamento Criminoso
O comportamento criminoso é influenciado por uma série de factores psicológicos, sociais e familiares. Estudos indicam que indivíduos com comportamentos delinquentes frequentemente apresentam impulsividade e baixos níveis de autocontrole. Esses traços podem resultar de uma combinação de elementos, como supervisão parental deficiente e a falta de ocupações saudáveis.
Actualmente, as mudanças nas estruturas familiares têm impactado negativamente a capacidade de muitos casais de gerir seus lares e cumprir as suas funções. Como consequência, muitos pais não conseguem atender às necessidades dos filhos, resultando em divórcios, separações e outros problemas associados, culminando frequentemente na desestruturação familiar. Segundo Leyens e Yzerbyl (1997), as famílias desestruturadas tendem a apresentar uma cultura de violência, caracterizada por conflitos frequentes, violência doméstica, maus-tratos às crianças, estresse, abuso de álcool e pobreza.
Albuquerque (2010) destaca que a desestruturação familiar interfere no comportamento do indivíduo, que, por medo de rejeição ou isolamento, pode se associar a grupos de influência negativa, submetendo-se a regras prejudiciais.
A desestruturação familiar também está correlacionada com o aumento de comportamentos de risco, como uso de substâncias psicoactivas e participação em actividades violentas. Sem o suporte e a orientação da família, os indivíduos podem ter dificuldade em desenvolver habilidades de tomada de decisão, tornando-se mais susceptíveis às pressões externas.
No entanto, é importante reconhecer que nem todos os indivíduos provenientes de famílias desestruturadas se envolvem em comportamentos criminosos. A influência da desestruturação familiar é mediada por uma série de factores contextuais, como o acesso a redes de apoio comunitário, intervenções educativas e a presença de figuras de referência positivas fora do núcleo familiar.
Portanto, a desestruturação familiar representa um factor de risco significativo para o desenvolvimento de comportamentos criminosos, especialmente quando combinada com outros elementos, como pobreza, exclusão social e falta de oportunidades.
Prevenção da Desestruturação Familiar
A prevenção da desestruturação familiar no comportamento criminoso requer uma abordagem integrada que considere os múltiplos factores que contribuem para a formação e manutenção de vínculos familiares saudáveis (Albuquerque, 2010).
Políticas públicas que promovam o fortalecimento dos laços familiares, como programas de assistência social, acompanhamento psicológico e medidas que favoreçam a inclusão social e económica, são essenciais para mitigar os impactos da desestruturação familiar (Oliveira & Maria, 2009).
A colaboração entre instituições escolares, serviços de saúde, segurança pública e comunidades locais pode criar redes de protecção que auxiliem na identificação precoce de situações de vulnerabilidade, reduzindo as chances de comportamentos criminosos originados ou exacerbados por dinâmicas familiares disfuncionais.
Dessa forma, prevenir a desestruturação familiar não apenas contribui para o bem-estar individual, mas também para a segurança colectiva e para a construção de uma sociedade mais justa e solidária.
Crianças e Jovens em Situação de Rua
O termo "crianças em situação de rua" é utilizado para descrever menores que passam grande parte de seu tempo na rua, com vínculos frágeis ou inexistentes com suas famílias. De acordo com a UNICEF (2001), essas crianças podem ser classificadas em dois grupos: aquelas que passam o dia na rua, mas retornam para casa à noite (crianças na rua), e aquelas que vivem integralmente nas ruas, com pouco ou nenhum contacto com familiares (crianças de rua).
No presente estudo, o conceito de "jovens em situação de rua" é entendido de forma abrangente, englobando ambos os casos descritos acima. Esses jovens enfrentam severas privações e estão mais vulneráveis a riscos como exploração, violência e envolvimento em comportamentos desviantes.
Metodologia
Este artigo sustenta-se numa pesquisa aplicada e descritiva, baseada em um estudo de caso realizado no Bairro Rasta, Luanda, no ano de 2024. A pesquisa teve a finalidade de descrever a relação entre desestruturação familiar e comportamento criminal entre jovens em situação de rua, utilizando uma abordagem quantitativa para análise dos dados. A escolha do estudo de caso justifica-se pela necessidade de uma análise aprofundada do fenómeno em um contexto específico.
Foram utilizados métodos de nível teórico para fundamentar a pesquisa tais como: análise-síntese, dedutivo-indutivo e hipotético-dedutivo.
A colecta de dados foi realizada por meio de um questionário e o método estatístico.
População e Amostra
A população-alvo deste estudo é composta por jovens e adolescentes residentes no Bairro Rasta de Golf I em Luanda. O processo de selecção da amostra foi realizado através da abordagem a jovens que, ‘aparentemente’, cumpriam os critérios de serem jovens em situação de rua, ou seja, jovens que, em horário escolar, se-encontram a vaguear nas ruas.
A amostra foi composta por 30 jovens entre 16 e 24 anos, seleccionados por meio de uma amostragem não probabilística por julgamento, com base no critério de serem jovens de rua, com ou sem histórico de comportamento criminal, que concordaram em participar da pesquisa.
Pelo conhecimento empírico, esses adolescentes, em sua maioria, vivem em contextos de vulnerabilidade, caracterizados por lares desestruturados, onde prevalecem factores como a ausência de um ou ambos os pais, conflitos familiares frequentes, negligência e, em alguns casos, exposição à violência doméstica. A nossa missão é comprovar a veracidade desses critérios no Bairro Rasta.
Os dados colectados foram analisados estatisticamente, com foco na identificação de padrões e correlações entre desestruturação familiar e comportamento criminal. A representação dos resultados foi feita por meio de gráfico, facilitando a interpretação e discussão dos achados.
Resultados e Discussão
A seguir apresentam-se os dados e a sua respectiva discussão, resultados do questionário aplicado aos jovens em situação de rua inquiridos. O facto dos questionários serem preenchidos frente à pesquisadora facilitou a aclaração dos termos necessários. O questionário foi dividido em secções para um melhor tratamento das respostas.
Secção 1: Informações pessoais básicas
Nesta secção, apresentam-se os dados demográficos dos inquiridos, para uma melhor compreensão das características da amostra seleccionada.
Gráfico #1. Identificação dos inquiridos por idade.
Os dados do gráfico # 1 revelam que a maior percentagem da amostra está composta por jovens entre os 16 e os 18 anos, que, embora não possuam a maior maturidade, demonstraram maior disposição para responder às perguntas do questionário. Com a mesma percentagem, encontram-se os jovens entre os 20 e os 24 anos (40%), que já conseguem responder com maior nível de responsabilidade.
Gráfico #2. Identificação dos inquiridos por género
Ao analisar a relação entre o género e o comportamento criminoso, a maior presença masculina pode reflectir a realidade de que jovens do género masculino, frequentemente em situação de rua ou em contextos de desestruturação familiar, são mais propensos ao envolvimento em actividades ilícitas.
Essa propensão pode estar ligada a factores sociais e culturais, como a pressão para assumir o papel de provedor desde cedo, mesmo em contextos de escassez de recursos e ausência de figuras parentais estáveis, especialmente a figura paterna.
A pouca diferença entre os géneros sugere a necessidade de abordagens específicas e diferenciadas para entender e tratar os problemas enfrentados por jovens de rua, levando em consideração as particularidades de como a desestruturação familiar pode afectar meninos e meninas de maneiras distintas.
Secção 2: Estrutura Familiar
Nesta secção, apresentam-se características das famílias dos inquiridos, segundo as suas percepções.
Gráfico # 3. Identificação dos dados de acordo com a figura paternal principal.
A ausência de uma figura paterna consistente como indica o gráfico #3 pode ter implicações significativas no desenvolvimento comportamental dos jovens.
Estudos apontam que a falta de uma referência masculina estável pode impactar negativamente a socialização e a construção de limites, uma vez que a figura paterna, na cultura angolana, é tradicionalmente associada à imposição de disciplina e ao modelo de autoridade.
Além disso, a ausência paterna pode privar os jovens de modelos de comportamento positivo, aumentando a vulnerabilidade a influências externas negativas, como a participação em grupos de pares envolvidos em actividades delituosas.
A ausência de supervisão e apoio emocional adequado pode levar os jovens a buscar validação e pertencimento em contextos de risco, o que contribui para o envolvimento em comportamentos criminosos.
Gráfico # 4. Distribuição de dados de acordo com o estado civil dos pais.
A maior parte dos jovens em situação de rua inquiridos (57%) mencionou que os seus pais são divorciados. Esta alta percentagem sugere que a desestruturação familiar, neste caso o divórcio, pode ser um factor significativo que contribui para o comportamento criminal dos jovens. O divórcio pode causar instabilidade emocional e falta de supervisão adequada, o que pode levar os jovens a envolverem-se em actividades criminosas.
Um grupo de jovens mencionou que os seus pais são casados. Embora essa percentagem seja menor, é interessante notar que nem todos os jovens em situação de rua vêm de famílias desestruturadas.
Apesar disso, defendemos que a estrutura familiar tem uma influência no desenvolvimento da criança ou do jovem, sendo que os pais casados oferecem algumas vantagens para os filhos. No entanto, não é uma garantia afirmar que os mesmos não possam vir a desenvolver comportamentos desviantes ou criminosos. Assim sendo, inúmeros factores contribuem para estes comportamentos, desde o ambiente social, condições económicas, educação e apoio emocional.
Isso indica que outros factores, além da desestruturação familiar, também podem desempenhar um papel no comportamento criminal dos jovens.
Gráfico # 5. Identificação dos dados em função da moradia dos inquiridos com os seus progenitores ou algum membro da sua família
No gráfico n.º 5, pode-se constatar que os filhos têm como entidade parental principal a mãe. Muitas mães solteiras enfrentam dificuldades financeiras, o que pode levar os jovens a procurarem meios ilícitos de obter dinheiro para ajudar nas despesas de casa.
A falta de um ambiente estável e seguro pode fazer com que os jovens busquem refúgio nas ruas, onde estão mais vulneráveis a influências negativas e a comportamentos criminosos.
A mãe, sobrecarregada com as responsabilidades, pode não conseguir fornecer o suporte emocional necessário, o que pode levar os jovens a buscarem aceitação e apoio fora do lar, possivelmente em grupos criminosos.
O seguinte gráfico contém uma declaração dos inquiridos em relação a serem ou não vítimas de violência doméstica, depois da pesquisadora explicar as diferentes manifestações de violência doméstica segundo a literatura.
Gráfico # 6. Identificação dos dados relacionado com a violência ou abuso doméstico
Relativamente a sofrer violência doméstica, é necessário perceber que a violência no lar faz parte dos factores que contribuem para a desestruturação familiar e acarreta sérias consequências, podendo influenciar o comportamento dos filhos.
É de salientar que os pais são vistos como modelos pelos filhos e, uma vez que estes presenciam momentos de violência no seio familiar, poderão vir a apresentar comportamentos agressivos ou, ao contrário, tornar-se mais isolados e tímidos. Existe um risco maior de que os indivíduos que vivenciam esta situação se tornem agressores ou vítimas em relacionamentos futuros.
Segundo os dados, a maioria dos jovens entrevistados relatou ter sofrido violência doméstica. Este é um indicador preocupante e sugere que a violência doméstica é uma experiência comum entre esses jovens.
Uma percentagem considerável dos inquiridos preferiu não falar sobre o assunto. Isso pode indicar que esses jovens têm medo, vergonha ou traumas relacionados à violência doméstica. Pode também sugerir uma falta de confiança nos inquiridores ou no sistema que deveria proteger e apoiar esses jovens.
Secção 3: Condições socioeconómicas
Nesta secção apresentam-se os critérios dos inquiridos em relação à situação socioeconómica das suas famílias. Estes dados podem ser contraditórios, pois em primeira instância se supõe que a situação económica de um jovem que vive nas ruas não deve ser nada favorável, mas os critérios não levam nessa direcção.
Gráfico # 7. Distribuição de dados de acordo com as condições socioeconómicas
De forma geral, o nosso país vem enfrentando vários desafios no sector económico e social, de modo que o gráfico, de forma específica, ilustra-nos com maior percentagem que algumas famílias vivem em condições socioeconómicas razoáveis. Ou seja, têm uma condição económica mediana ou regular. Deste modo, a pesquisadora entende que a situação socioeconómica influencia a estrutura familiar, causando vulnerabilidade. Estas famílias em vulnerabilidade enfrentam desafios como a falta de acesso aos serviços básicos, tais como a educação e saúde.
Portanto, a condição socioeconómica pode potencializar o comportamento desviante dos indivíduos, levando-os até mesmo a estarem mais propensos a envolver-se em actividades desviantes, como o uso de substâncias psicotrópicas, como um artifício de sobrevivência.
Analisando os dados fornecidos sobre as condições socioeconómicas dos jovens de rua, podemos tirar algumas conclusões:
A maioria dos jovens entrevistados considera as suas condições socioeconómicas como razoáveis. Verifica-se que, embora eles não vivam em situações ideais, possuem recursos mínimos suficientes para sobreviver. No entanto, "razoável" pode significar muitas coisas diferentes para pessoas diferentes, e pode ainda indicar uma luta diária para atender às suas necessidades básicas.
Uma parte significativa dos jovens vive em condições ruins. Estes jovens podem enfrentar desafios como a falta de acesso a recursos essenciais, como alimentação adequada, moradia segura e cuidados de saúde.
Uma percentagem menor, mas ainda preocupante, dos jovens está em situações de extrema precariedade. Estes jovens provavelmente estão em risco extremo, enfrentando desafios como fome, falta de abrigo e exposição a ambientes perigosos.
Uma pequena percentagem dos jovens vive em boas condições. Isso indica que, apesar das dificuldades gerais, alguns jovens conseguem encontrar recursos e apoio suficientes para manter um padrão de vida relativamente estável.
Secção 4: Comportamento delinquente
Os dados apresentados nesta secção são de grande importância para poder estabelecer uma relação entre as variáveis comportamento criminal e desestruturação familiar.
Gráfico # 8. Distribuição de dados em relação ao envolvimento em brigas físicas
Certamente, a desestruturação familiar pode, de facto, contribuir para o envolvimento dos jovens em brigas físicas. Repare-se que, quando o indivíduo está inserido num ambiente familiar instável, com conflitos, ausência de apoio emocional ou falta de supervisão parental, os jovens podem buscar formas de validação ou pertencimento fora de casa, muitas vezes envolvendo-se em grupos que promovem a violência.
Portanto, existe a necessidade de prevenir o envolvimento dos jovens em brigas físicas, uma vez que tais comportamentos poderão apresentar algumas consequências a curto e a longo prazo. A curto prazo, os jovens podem incorrer em exclusão social, prisão e expulsão escolar; a longo prazo, poderão reincidir no crime ou desenvolver problemas de saúde mental.
Gráfico # 9. Distribuição de dados relativamente ao cometimento de actos desviantes e criminosos
Relativamente a estes actos, a pesquisadora entende que tais comportamentos estão associados à desestruturação familiar.
Olhando para a teoria integracionista de Becker (2008), esta postula que o cometimento de actos desviantes ou criminosos pelos jovens pode ser explicado por uma combinação de défices individuais e práticas educativas ineficazes.
Logo, presume-se que as características dos jovens e adolescentes em um contexto familiar hostil aumentam a probabilidade de a relação entre pais e filhos ser marcada por um estilo de interacção coercivo, o que levaria os jovens a participarem em gangues, a terem contacto com o uso de drogas e a incorporarem grupos de vandalismo.
Analisando os dados fornecidos sobre o comportamento criminal dos jovens de rua, uma parte significativa deles relatou ter feito uso de drogas.
Isso pode indicar que a desestruturação familiar e a falta de suporte emocional e social podem levar esses jovens a buscar refúgio em substâncias ilícitas. O uso de drogas pode ser tanto uma causa quanto uma consequência de comportamentos criminosos.
Um número considerável de jovens admitiu ter cometido roubos. Isso pode ser um reflexo da necessidade de sobrevivência em um ambiente de rua, onde os recursos são escassos. Além disso, a falta de orientação e supervisão familiar pode contribuir para a adopção de comportamentos delinquentes.
A participação em gangues é outro comportamento preocupante. Jovens que se envolvem em gangues muitas vezes buscam um senso de pertencimento e protecção que não encontram em suas famílias desestruturadas. No entanto, isso os expõe a um ambiente de violência e criminalidade.
Acções de Prevenção e Intervenção que Podem ser Adoptadas para Minimizar os Efeitos da Desestruturação Familiar nos Jovens em Situação de Rua e Seus Comportamentos Criminais.
Para abordar os efeitos dos comportamentos criminais e o aumento de jovens de rua devido à desestruturação familiar, algumas acções podem ser consideradas:
1. Criar programas de apoio às famílias para promover a coesão familiar, melhorar a comunicação e oferecer apoio psicológico e emocional. Isso pode ajudar a prevenir a desestruturação e oferecer um ambiente mais estável para os jovens.
Esses programas podem incluir workshops e seminários que ensinam habilidades parentais, comunicação eficaz, resolução de conflitos e gestão do tempo. A educação familiar pode ajudar os pais a entenderem melhor as necessidades emocionais e psicológicas de seus filhos.
2. Oferecer programas educacionais e de capacitação profissional para os jovens de rua. A educação pode proporcionar oportunidades e alternativas à vida nas ruas, além de promover o desenvolvimento de habilidades que podem levar a empregos e uma vida mais estável.
3. Estabelecer serviços de apoio psicossocial para jovens de rua, incluindo aconselhamento e terapia. Esses serviços podem ajudar a abordar traumas passados e promover comportamentos positivos.
Isso pode incluir terapia individual, de casal e familiar. Ter um profissional de saúde mental para orientar as famílias pode prevenir a escalada de conflitos e promover um ambiente doméstico mais harmonioso.
4. Desenvolver programas de reinserção social que ajudem os jovens a se integrarem novamente na sociedade, oferecendo suporte contínuo e acompanhamento para garantir que eles não voltem às ruas.
5. Implementar políticas públicas que abordem as causas da desestruturação familiar, como pobreza, falta de acesso a serviços básicos e desemprego. Investir em infra-estrutura e serviços comunitários pode criar um ambiente mais seguro e cooperativo para as famílias.
6. Envolver a comunidade local e organizações não governamentais em esforços para apoiar jovens de rua. A colaboração entre diferentes sectores pode resultar em soluções mais eficazes e sustentáveis.
7. Muitas famílias enfrentam desestruturação devido a dificuldades financeiras. Programas de assistência financeira, como subsídios, bolsas de estudo e auxílios, podem aliviar o estresse económico. Além disso, programas de capacitação profissional e ajuda na busca de emprego podem garantir que os pais tenham uma fonte de renda estável.
8. Incentivar a formação de grupos de apoio dentro da comunidade, onde famílias possam se encontrar regularmente para compartilhar experiências, desafios e soluções. Essas redes de apoio podem proporcionar um senso de pertencimento e reduzir o isolamento social.
9. Organizar actividades recreativas e educativas que envolvam toda a família pode fortalecer os laços familiares. Isso pode incluir clubes de leitura, desportes, artesanato, jogos e excursões em família. Essas actividades podem promover a cooperação, a comunicação e o prazer compartilhado.
10. Estabelecer sistemas de monitoramento e avaliação para acompanhar o progresso das famílias que participam de programas de fortalecimento. Isso pode ajudar a identificar áreas que necessitam de melhorias e garantir que as famílias recebam o apoio adequado.
Implementar essas estratégias pode contribuir significativamente para fortalecer as famílias, oferecendo um ambiente mais seguro para os jovens e reduzindo a probabilidade de envolvimento em comportamentos criminais.
CONCLUSÃO
Após a análise dos dados colectados por meio do questionário aplicado aos jovens de rua moradores do Bairro Rasta, podemos concluir que a desestruturação familiar se revela um factor preponderante na formação e perpetuação de comportamentos criminosos entre essa população. Os resultados apresentados demonstram de maneira clara e consistente a interacção entre factores como a violência doméstica, a ausência de um dos pais, e a supervisão parental deficiente, com a propensão para a prática de actos ilícitos.
Os dados evidenciam que a maioria dos jovens inquiridos provém de famílias desestruturadas, o que é corroborado pelos altos índices de divórcio (57%) e violência doméstica (60%) relatados no estudo.
A análise revelou que condições como a falta de supervisionamento parental e o relacionamento conflituoso entre os pais são aspectos directamente ligados ao desenvolvimento de comportamentos desviantes e criminosos.
Os dados indicam que uma grande parte dos jovens de rua apresenta antecedentes penais, corroborando a ideia de que a desestruturação familiar é um factor relevante a ser considerado em sua trajectória criminosa.
Ficou claro que a ausência de um dos genitores, as relações conflituosas e a falta de um ambiente familiar saudável estão associadas a elevadas taxas de comportamentos anti-sociais entre os jovens analisados.
O levantamento realizado sugere a necessidade urgente de políticas públicas que priorizem a reestruturação familiar, apoio psicológico, e programas educativos, a fim de mitigar os efeitos da desestruturação familiar nos jovens.
Em suma, esta pesquisa salienta a importância de uma abordagem integrada, que considere o contexto familiar dos jovens, não só para a compreensão do seu comportamento, mas também para a formulação de estratégias eficazes de intervenção e prevenção.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Becker, H. S. (2008). Outsiders: Estudos de sociologia do desvio. Zahar.
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Inaculo, A. V. (2023). Criminologia, direito e segurança pública. WA Editora.
Leyens, J. P., & Yzerbyt, V. (1997). Psicologia social: Dinâmicas familiares e comportamento agressivo. Psicologia Actual.
Oliveira., Maria C. (2009). Transformações familiares e seus impactos na infância e adolescência. Editora Vozes.
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