Inteligência Artificial Aplicada à Previsão de Sistemas Complexos: Estudo de Caso na Criminologia Urbana em Angola

Artificial Intelligence Applied to the Prediction of Complex Systems: A Case Study in Urban Criminology in Angola

Inteligencia Artificial Aplicada a la Predicción de Sistemas Complejos: Estudio de Caso en la Criminología Urbana en Angola

Autores: Rouget Ruano Fundora

                    Mestre em Informática Educativa

                    Instituto Superior Politécnico de Ciências e Tecnologia

                    ORCID: https://orcid.org/0009-0007-5834-1990

                    e-mail: rouget.fundora@gmail.com

              Juan Rubén Herrera Masó

                      Doutor em Ciências Jurídicas

                      Instituto Superior Politécnico de Ciências e Tecnologia

                      ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0259-0708

                      e-mail: rh162678@gmail.com

               

               

Artigo de revisão

RESUMO

Este artigo examina a aplicação da inteligência artificial (IA) na previsão e análise de sistemas complexos no contexto da criminologia urbana em Angola. A partir de uma abordagem interdisciplinar, que combina fundamentos da criminologia crítica e métodos computacionais avançados, explora-se como modelos preditivos podem ser utilizados para compreender e antecipar padrões de criminalidade urbana. A pesquisa destaca o potencial transformador da IA para informar políticas públicas de segurança e prevenir crimes, respeitando princípios éticos e direitos fundamentais.

Palavras-chave: Inteligência Artificial, Criminologia Urbana, Previsão Criminológica, Sistemas Complexos em Angola.

ABSTRACT

This article examines the application of artificial intelligence (AI) in the prediction and analysis of complex systems in the context of urban criminology in Angola. Through an interdisciplinary approach, that combines the foundations of critical criminology and advanced computational methods, it explores how predictive models can be used to understand and anticipate patterns of urban crime. The research highlights the transformative potential of AI to inform public security policies and prevent crime, while respecting ethical principles and fundamental rights.

Keywords: Artificial Intelligence, Urban Criminology, Criminological Prediction, Angola Complex Systems.

RESUMEN

Este artículo examina la aplicación de la inteligencia artificial (IA) en la predicción y el análisis de sistemas complejos en el contexto de la criminología urbana en Angola. A partir de un enfoque interdisciplinario que combina fundamentos de la criminología crítica con métodos computacionales avanzados, se explora cómo los modelos predictivos pueden utilizarse para comprender y anticipar patrones de criminalidad urbana. La investigación destaca el potencial transformador de la IA para informar políticas públicas de seguridad y prevenir delitos, respetando principios éticos y derechos fundamentales.

Palabras clave: Inteligencia Artificial, Criminología Urbana, Predicción Criminológica, Sistemas Complejos en Angola

INTRODUÇÃO

A criminalidade urbana é actualmente um dos principais desafios sociais enfrentados por diversas nações, sobretudo aquelas que vivenciam um rápido processo de urbanização e transformação socioeconómica, como é o caso de Angola. O crescimento acelerado das cidades, acompanhado por desigualdades económicas, mobilidade populacional intensa e fragilidades institucionais, contribui para a complexidade dos fenómenos criminais nesses ambientes. Essa complexidade se manifesta na imprevisibilidade dos eventos, na interdependência entre diferentes factores sociais, económicos e ambientais, e na emergência de padrões dinâmicos e não lineares que dificultam a aplicação de métodos tradicionais de prevenção e controle.

Diante desse cenário, a Inteligência Artificial (IA) surge como uma ferramenta inovadora e promissora para a análise e gestão da criminalidade urbana. Tecnologias baseadas em IA, como aprendizado de máquina, redes neurais e análise de big data, possibilitam a identificação de padrões ocultos em grandes volumes de dados, a modelagem de sistemas complexos e a simulação de diferentes cenários futuros. Tais capacidades são particularmente relevantes para contextos urbanos onde a diversidade e o dinamismo das variáveis envolvidas dificultam o planeamento estratégico e a intervenção eficaz por parte dos órgãos de segurança pública.

Este artigo tem como objectivo aplicar a Inteligência Artificial (IA) na criminologia urbana em Angola, com foco na previsão de padrões criminais e na contribuição para o desenvolvimento de estratégias de intervenção mais eficientes e fundamentadas. Para tanto, será apresentado um estudo de caso baseado em dados simulados que incorporam variáveis contextuais relevantes, seguido da aplicação de modelos preditivos adaptados às condições locais. Além disso, serão discutidos os aspectos éticos e sociais relacionados ao uso da IA na área da segurança, enfatizando a necessidade de um equilíbrio entre inovação tecnológica e respeito aos direitos fundamentais.

Com isso, pretende-se oferecer uma contribuição teórica e prática para o avanço do conhecimento sobre a intersecção entre tecnologias emergentes e ciências criminais, destacando o potencial transformador da IA para enfrentar desafios urbanos contemporâneos em Angola.

Fundamentação Teórica: Criminologia e Sistemas Complexos

A criminologia urbana tem como foco o estudo das dinâmicas do crime em contextos urbanos, considerando os efeitos da desigualdade social, exclusão territorial e ausência de políticas públicas eficazes. Neste sentido, a criminologia crítica emerge como uma vertente teórica fundamental para compreender o crime não como uma simples violação da norma penal, mas como um fenómeno social, historicamente condicionado e produzido por estruturas de dominação e marginalização (Zaffaroni, 2007; Wacquant, 2001).

Autores como Foucault (1975) contribuem com a noção de que os dispositivos de controle e vigilância social moldam os corpos e produzem o "delinquente" como sujeito funcional ao sistema penal. Garland (2001), por sua vez, discute o surgimento de uma nova governamentalidade do crime baseada na gestão de riscos e na predição de comportamentos desviantes. Esta racionalidade penal preditiva torna-se especialmente relevante na era dos algoritmos, onde a IA pode desempenhar papel central na categorização de indivíduos e territórios como mais ou menos perigosos.

A inteligência artificial, em especial através de técnicas de aprendizado de máquina e redes neurais artificiais, mostra-se promissora para lidar com essa complexidade. Por meio da análise de grandes volumes de dados (big data), essas ferramentas permitem identificar padrões latentes e prever comportamentos ou eventos, frequentemente invisíveis aos métodos estatísticos convencionais.

Os sistemas sociais, como o sistema de justiça criminal, são exemplos paradigmáticos de sistemas complexos adaptativos, caracterizados pela interacção não-linear entre múltiplos agentes, presença de retroalimentação contínua e emergência de padrões não previsíveis a partir dos elementos isolados (Holland, 1995). Esses sistemas evoluem ao longo do tempo, adaptando-se a novos contextos, o que dificulta a modelação por meio de abordagens deterministas tradicionais.

Os sistemas sociais, como o sistema criminal, são considerados sistemas complexos adaptativos: compostos por múltiplos agentes, dotados de não-linearidade, retroalimentação e emergência de padrões (Holland, 1992). A distinção entre sistemas caóticos e aleatórios é fundamental para a previsão de fenómenos complexos. Sistemas aleatórios são intrinsecamente imprevisíveis e geralmente analisados por meio de métodos estatísticos (Mandelbrot, 1983). Em contraste, sistemas caóticos seguem leis determinísticas; no entanto, pequenas variações nas condições iniciais podem levar a trajectórias drasticamente diferentes ao longo do tempo (Lorenz, 1963). Essa sensibilidade exacerbada é o que impede previsões precisas a longo prazo, mesmo em sistemas que, em teoria, são previsíveis. Nesse contexto, a IA — especialmente o aprendizado de máquina e as redes neurais — revela-se capaz de lidar com esse tipo de complexidade, oferecendo técnicas sofisticadas para previsão de comportamentos com base em grandes volumes de dados (big data), muitas vezes invisíveis aos métodos estatísticos convencionais (Goodfellow, Bengio, & Courville, 2016).

Assim, a utilização de IA na criminologia urbana oferece possibilidades inéditas para análise, mapeamento e previsão de ocorrências criminais. No entanto, exige também uma abordagem crítica quanto aos riscos de discriminação algorítmica[1], reforço de estigmas sociais e violação de direitos fundamentais (Eubanks, 2018). Modelos de IA, como as Redes Neurais de Memória de Curto e Longo Prazo (LSTM), as Unidades Recorrentes Gated (GRU) e as Echo State Networks (ESN), são particularmente eficazes na modelagem de séries temporais e fenómenos dinâmicos. A ESN, em particular, destaca-se por sua leveza computacional e estabilidade de treinamento, tornando-a uma solução ideal para cenários com dados limitados (Jaeger & Haas, 2004). Essa característica é crucial em contextos onde a infra-estrutura tecnológica é um desafio.

No campo da criminologia urbana, a aplicação da IA oferece possibilidades inovadoras para o mapeamento, análise e previsão de ocorrências criminais. Contudo, essa potencialidade vem acompanhada de riscos ético-sociais relevantes, como a possibilidade de reprodução de vieses institucionais, discriminação algorítmica e reforço de estigmas sociais, particularmente em territórios historicamente marginalizados (Eubanks, 2018; O’Neil, 2016).

Entre os modelos mais eficazes para tratar séries temporais e padrões dinâmicos no domínio da previsão criminal, destacam-se as Redes Neurais de Memória de Curto e Longo Prazo (LSTM), as Unidades Recorrentes Gated (GRU) e as Echo State Networks (ESN). Esta última apresenta vantagens notáveis, como eficiência computacional e estabilidade no processo de treinamento, o que a torna particularmente útil em contextos de infra-estrutura tecnológica limitada — uma realidade presente em diversas regiões urbanas de Angola (Doan, Vo, & Lee, 2020).

Portanto, a utilização de IA na criminologia urbana deve ser orientada não apenas por critérios de eficácia técnica, mas também por uma análise crítica informada por princípios da criminologia crítica e dos direitos humanos, garantindo que os avanços tecnológicos contribuam para a justiça social e não para a sua negação.

METODOLOGIA

A abordagem metodológica pende fortemente para o quantitativo, mas com uma base teórica qualitativa (criminologia crítica).

·         Ênfase no Quantitativo: O trecho "explora-se como modelos preditivos podem ser utilizados para compreender e antecipar padrões de criminalidade urbana" e a menção à "aplicação da inteligência artificial (IA) na previsão e análise de sistemas complexos" indicam um foco claro em:

o    Coleta e análise de dados numéricos (padrões de criminalidade).

o    Utilização de algoritmos e modelos estatísticos/computacionais (IA, modelos preditivos) para identificar tendências, correlações e fazer projeções.

o    Busca por generalizações e mensurações sobre o fenômeno criminal.

·         Influência Qualitativa (Criminologia Crítica): Embora a execução da pesquisa seja quantitativa, a "criminologia crítica" como fundamento sugere uma preocupação com aspectos mais qualitativos na compreensão do contexto social, das desigualdades e das estruturas de poder que influenciam o crime. Isso significa que, mesmo usando dados e modelos, a interpretação dos resultados provavelmente será informada por uma perspectiva mais aprofundada das causas sociais e não apenas pela frieza dos números.

·         Complementarmente, propõe-se a simulação de cenários preditivos com base em dados públicos fictícios sobre criminalidade urbana em Luanda, integrando variáveis como localização geográfica, horário das ocorrências, tipo de crime e factores socioeconómicos do bairro analisado. Utilizou-se um modelo de rede neural recorrente (RNN) para prever padrões temporais e espaciais de crimes.

Portanto, a pesquisa utiliza uma abordagem predominantemente quantitativa para a análise de dados e previsão, mas essa análise é enquadrada por uma lente teórica da criminologia crítica, que tipicamente tem um caráter mais qualitativo e interpretativo na sua base.

Em resumo, o "como" da pesquisa (os métodos computacionais) é quantitativo, enquanto o "porquê" (a lente da criminologia crítica) tem raízes qualitativas.

Contexto

A cidade de Luanda, em particular a zona da Mutamba, é caracterizada por um alto índice de crimes patrimoniais. A capacidade de prever esses eventos poderia auxiliar na alocação estratégica de recursos de policiamento. No entanto, o acesso a dados criminais históricos em Angola ainda é restrito. Diante dessa limitação, este estudo optou pelo uso de dados simulados, ressaltando a necessidade futura de colaborações entre pesquisadores e órgãos como o Serviço de Investigação Criminal (SIC) e o Ministério do Interior (MININT) para acesso a dados reais.

Dados e Pré-processamento

Para a simulação, foram gerados dados sintéticos baseados em uma distribuição de Poisson, representando 200 dias de ocorrências criminais. Além disso, foram simuladas e incorporadas ao modelo variáveis contextuais relevantes, como condições climáticas, eventos especiais (por exemplo, grandes aglomerações) e acções de patrulhamento policial. As séries temporais resultantes foram segmentadas em janelas deslizantes de 5 dias, com o objectivo de capturar a dinâmica temporal de curto prazo da criminalidade urbana e preparar adequadamente os dados para a modelagem preditiva (Chandola, Banerjee, & Kumar, 2009; Wei, 2018).

Modelo Utilizado

Ao invés de implementar uma Echo State Network (ESN) completa, optou-se por utilizar uma regressão Ridge como uma aproximação prática desse modelo. Essa escolha levou em consideração as limitações de infra-estrutura computacional encontradas em contextos angolanos, buscando garantir que a solução seja replicável em ambientes com recursos tecnológicos restritos (Hoerl & Kennard, 1970; Jaeger, 2001). O desempenho do modelo foi avaliado por meio de métricas consagradas na área, como o Erro Absoluto Médio (MAE) e a Raiz Quadrada do Erro Quadrático Médio (RMSE) (Willmott & Matsuura, 2005).

Código de Implementação com Comentários Explicativos

O principal objectivo desta abordagem é avaliar a aplicabilidade de modelos computacionalmente leves, acessíveis e interpretáveis para análise preditiva no contexto urbano angolano, onde a disponibilidade de dados reais e recursos computacionais pode ser restrita. Essa metodologia contribui para a construção de ferramentas práticas que possam auxiliar órgãos de segurança pública na tomada de decisões estratégicas, reforçando a importância da adaptação das tecnologias de inteligência artificial às especificidades locais (Wang et al., 2017; Gerber, 2014).

Como foi supracitado, o código a seguir realiza a simulação de dados para o bairro da Mutamba e aplica um modelo de regressão Ridge para prever o número de ocorrências criminais. As previsões são feitas com base em variáveis contextuais simuladas, tais como clima, presença de eventos sociais e número de patrulhas policiais. A escolha pela regressão Ridge se deve à sua capacidade de lidar com multicolinearidade entre variáveis e à sua eficiência computacional, características essenciais para aplicação em contextos com infra-estrutura tecnológica limitada (Hoerl & Kennard, 1970; Hastie, Tibshirani & Friedman, 2009). A simulação dos dados permite a criação de um cenário controlado para avaliação do modelo, simulando dinâmicas reais da criminalidade urbana (Brantingham & Brantingham, 1995).

A seguir o código Python para a simulação dos dados da criminalidade urbana onde se aplica um modelo de Regressão Ridge para previsão. Elas variam em foco e podem ser adaptadas ao tom e aos objectivos específicos do seu trabalho.

#Python

import numpy as np

import pandas as pd

from sklearn.model_selection import train_test_split

from sklearn.linear_model import Ridge

from sklearn.metrics import mean_absolute_error, mean_squared_error

import matplotlib.pyplot as plt

# ----------------------------

# Configuração inicial

# ----------------------------

np.random.seed(42)  # Garante reprodutibilidade dos resultados

dias = 200          # Número total de dias simulados

# ----------------------------

# Simulação dos dados

# ----------------------------

# Simula a base de ocorrências criminais usando distribuição de Poisson

# Isso representa o número esperado de crimes por dia, com média 5

base_crime = np.random.poisson(5, dias)

# Simula variáveis contextuais que influenciam a criminalidade

clima = np.random.normal(loc=0, scale=1, size=dias)

# Clima varia normalmente em torno de zero (pode representar temperatura, chuva, etc.)

eventos = np.random.binomial(n=1, p=0.2, size=dias)

# Evento é binário (0 = sem evento especial, 1 = evento especial)

# Simula a ocorrência de grandes aglomerações ou eventos que podem afectar a criminalidade

patrulhas = np.random.randint(1, 5, size=dias)

# Número de patrulhas policiais por dia, variando entre 1 e 4

# Combina todas as variáveis para simular a quantidade de crimes diária,

# considerando os efeitos positivos/negativos de cada variável

mutamba = (

    base_crime

    + 0.8 * eventos         # Eventos aumentam a criminalidade

    - 0.5 * patrulhas       # Mais patrulhas diminuem a criminalidade

    + 1.2 * clima           # Clima influencia (positivo ou negativo)

    + np.sin(np.linspace(0, 10, dias)) * 2  # Componente sazonal (padrão periódico)

)

# ----------------------------

# Preparação dos dados para modelagem

# ----------------------------

# Cria um DataFrame para organizar as variáveis simuladas

df = pd.DataFrame({

    'dia': np.arange(dias),

    'Mutamba': mutamba,

    'eventos': eventos,

    'clima': clima,

    'patrulhas': patrulhas })

# Função para transformar a série temporal em janelas deslizantes multivariadas

# Cada janela tem 5 dias de dados e o objectivo é prever o valor do 6º dia

def create_multivariate_features(df, target='Mutamba', window_size=5):

    X, y = [], []

    for i in range(len(df) - window_size):

        # Selecciona uma janela de 5 dias consecutivos

        window = df.iloc[i:i+window_size]

        # Agrupa os valores das variáveis em uma única lista (flatten)

        features = window[['Mutamba', 'eventos', 'clima', 'patrulhas']].values.flatten()

        X.append(features)

                # O valor a ser previsto é o do dia seguinte à janela

        y.append(df[target].iloc[i + window_size])

    return np.array(X), np.array(y)

# Aplica a função para criar as matrizes de entrada (X) e saída (y)

X, y = create_multivariate_features(df)

# Divide os dados em conjunto de treino (80%) e teste (20%)

# shuffle=False garante que a ordem temporal seja mantida

X_train, X_test, y_train, y_test = train_test_split(X, y, test_size=0.2, shuffle=False)

# ----------------------------

# Treinamento do modelo

# ----------------------------

# Instancia o modelo de regressão Ridge com parâmetro alpha=1.0

model = Ridge(alpha=1.0)

# Ajusta o modelo aos dados de treino

model.fit(X_train, y_train)

# ----------------------------

# Avaliação do modelo

# ----------------------------

# Realiza previsões sobre o conjunto de teste

y_pred = model.predict(X_test)

# Calcula métricas de desempenho do modelo

mae = mean_absolute_error(y_test, y_pred)   # Erro Absoluto Médio

rmse = mean_squared_error(y_test, y_pred, squared=False)  # Raiz do Erro Quadrático Médio

print(f"MAE: {mae:.2f}, RMSE: {rmse:.2f}")

# ----------------------------

# Visualização dos resultados

# ----------------------------

# Gráfico 1: comparação entre valores reais e previstos

plt.figure(figsize=(10,5))

plt.plot(y_test, label='Real')

plt.plot(y_pred, label='Previsto')

plt.title('Previsão de Ocorrências Criminais - Mutamba')

plt.xlabel('Dias')

plt.ylabel('Ocorrências')

plt.legend()

plt.grid(True)

plt.tight_layout()

plt.savefig("simulacao_multivariada_mutamba.png")

plt.show()

# Gráfico 2: série temporal das ocorrências simuladas ao longo dos dias

plt.figure(figsize=(10, 5))

plt.plot(df['dia'], df['Mutamba'], label='Ocorrências Diárias Simuladas')

plt.title('Distribuição Diária de Ocorrências Criminais na Mutamba (Dados Simulados)')

plt.xlabel('Dias')

plt.ylabel('Ocorrências')

plt.legend()

plt.grid(True)

plt.tight_layout()

plt.savefig("distribuicao_historica_mutamba.png")

plt.show()

# Gráfico 3: análise do impacto das variáveis patrulhas e eventos

plt.figure(figsize=(12, 6))

# Scatter plot: relação entre patrulhas e ocorrências criminais

plt.subplot(1, 2, 1)

plt.scatter(df['patrulhas'], df['Mutamba'], alpha=0.6)

plt.title('Patrulhas vs. Ocorrências Criminais')

plt.xlabel('Número de Patrulhas')

plt.ylabel('Ocorrências Criminais')

plt.grid(True)

# Boxplot: comparação das ocorrências em dias com e sem eventos

plt.subplot(1, 2, 2)

df.boxplot(column='Mutamba', by='eventos', grid=True)

plt.title('Ocorrências por Presença de Eventos')

plt.suptitle('')  # Remove título automático do boxplot

plt.xlabel('Evento (0=Não, 1=Sim)')

plt.ylabel('Ocorrências Criminais')

plt.tight_layout()

plt.savefig("impacto_variaveis_mutamba.png")

plt.show()

O código gera uma simulação realista de ocorrências criminais para um bairro específico, incorporando fatocres contextuais que influenciam a criminalidade. A partir da transformação dos dados em janelas temporais, treina-se um modelo de regressão Ridge, adequado para cenários com infra-estrutura computacional limitada. Por fim, gráficos são gerados para visualizar resultados e analisar a relação entre variáveis, possibilitando uma base sólida para futuras aplicações com dados reais.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A simulação com o modelo Ridge demonstrou um desempenho promissor, especialmente considerando o uso de dados simulados. Na versão univariada do modelo (apenas com dados de crimes), os resultados foram: MAE: 2.11 ocorrências e RMSE: 2.52 ocorrências.

Com a inclusão de variáveis adicionais, como clima, eventos e patrulhas, o desempenho ajustou-se para MAE: 2.13 ocorrências e RMSE: 2.67 ocorrências.

Esses valores indicam um desempenho razoável do modelo para previsão de curto prazo. Embora a inclusão de variáveis contextuais tenha resultado em um ligeiro aumento nas métricas de erro neste cenário simulado, ela permite uma maior riqueza interpretativa. Essa capacidade de incorporar factores externos torna possível simular diferentes cenários operacionais, como o impacto de patrulhas adicionais ou a presença de eventos de grande escala na ocorrência criminal. Além disso, as análises reforçam a ideia de que modelos computacionalmente "leves" podem ser eficazes mesmo em ambientes com baixa capacidade computacional.

Para ilustrar o desempenho do modelo, apresentamos o Gráfico 1, que compara as ocorrências criminais reais simuladas com as previsões do modelo Ridge com múltiplas variáveis.

Gráfico 1: Comparação entre Ocorrências Criminais Reais (Simuladas) e Previsões do Modelo Ridge (Mutamba)

A análise do Gráfico 1 revela que o modelo consegue capturar a tendência geral das ocorrências criminais, mesmo com flutuações. Embora existam desvios pontuais, a proximidade das linhas 'Real' e 'Previsto' demonstra a capacidade do modelo em fornecer previsões que, em um ambiente real, poderiam auxiliar na tomada de decisões.

Análise Comparativa com "Dados Históricos" Simulados

Para aprofundar a discussão sobre a utilidade da IA na previsão de crimes, é fundamental contextualizar os resultados com o que se esperaria de uma análise sem modelos preditivos avançados. Em cenários sem IA, a alocação de recursos policiais frequentemente se baseia em médias históricas simples ou em abordagens reactivas, ou seja, respondendo a crimes após sua ocorrência.

Considerando os dados simulados, podemos criar uma visualização que ilustra essa diferença. O Gráfico 2 apresenta a distribuição diária das ocorrências criminais na Mutamba, permitindo uma visualização do padrão temporal dos "dados históricos".

Gráfico 2: Distribuição Diária de Ocorrências Criminais na Mutamba (Dados Simulados "Históricos")

A observação do Gráfico 2 permite notar que as ocorrências apresentam certa variabilidade ao longo do tempo. Sem um modelo preditivo, a análise desses "dados históricos" brutos permitiria apenas uma compreensão retrospectiva da criminalidade, limitando a capacidade de antecipar picos ou quedas.

Gráfico 3: Impacto das Variáveis Contextuais nas Ocorrências Criminais Simuladas

Outro ponto crucial é o impacto das variáveis contextuais. O Gráfico 3 demonstra visualmente como factores como eventos ou patrulhas podem influenciar o número de crimes, mesmo em um ambiente simulado.

O Gráfico 3 ilustra a correlação simulada entre as variáveis contextuais e as ocorrências criminais. Observa-se que dias com maior número de patrulhas tendem a ter menos ocorrências, enquanto a presença de eventos pode estar associada a um ligeiro aumento. Essa capacidade de quantificar e visualizar a influência desses factores é um dos grandes diferenciais dos modelos de IA, permitindo uma compreensão mais profunda do fenómeno criminal e a formulação de estratégias de policiamento proactivas.

A inclusão de variáveis contextuais nos modelos de IA, como a utilizada neste estudo, é um argumento forte em favor da sua aplicação. Enquanto a análise histórica tradicional apenas mostra "o que aconteceu", modelos preditivos com variáveis contextuais podem começar a indicar "por que aconteceu" e "o que pode acontecer", permitindo a simulação de diferentes cenários operacionais. Por exemplo, seria possível simular o impacto de um aumento de 20% nas patrulhas ou a realização de um grande evento público na criminalidade esperada. Isso transforma a segurança pública de uma abordagem reactiva para uma abordagem preventiva e baseada em dados, optimizando a alocação de recursos escassos em Luanda.

Os testes iniciais com dados simulados indicaram que a aplicação de modelos de regressão Ridge, mesmo com um conjunto limitado de variáveis contextuais (como clima, eventos e número de patrulhas), permite identificar padrões consistentes de criminalidade urbana no bairro da Mutamba. Os resultados mostraram um desempenho aceitável em termos de erro médio absoluto (MAE) e raiz do erro quadrático médio (RMSE), sugerindo que modelos computacionalmente leves podem oferecer suporte analítico útil mesmo em contextos de baixa infra-estrutura tecnológica.

Observou-se, por exemplo, que a combinação entre maior frequência de eventos e redução das patrulhas policiais estava associada a um aumento nas ocorrências simuladas, o que valida a sensibilidade do modelo às variáveis de entrada. Esse tipo de análise pode contribuir para a previsão de zonas e períodos de maior risco, como finais de semana ou datas festivas, permitindo alocar recursos de segurança de forma mais eficiente.

No entanto, os resultados também expõem limitações importantes. A qualidade, granularidade e representatividade dos dados utilizados influenciam directamente a capacidade preditiva do modelo. Em contextos reais, marcados por ausência de dados sistematizados e falhas de registro, como frequentemente ocorre em cidades africanas (UNODC, 2023), essa limitação pode comprometer a eficácia e a legitimidade das previsões.

Além das questões técnicas, surgem implicações éticas significativas. O uso de IA na previsão de crimes pode reforçar estigmas e preconceitos estruturais, especialmente quando alimentado por dados historicamente enviesados. Como alertado pela criminologia crítica (Baratta, 2002; Wacquant, 2009), há o risco de se naturalizar a criminalidade como um traço intrínseco a determinados territórios ou populações — frequentemente os mais pobres — legitimando intervenções repressivas e selectivas.

Modelos preditivos mal interpretados ou mal utilizados podem intensificar práticas de policiamento discriminatório, reproduzindo ciclos de criminalização secundária e marginalização social (Perry, 2013; Eubanks, 2018). A rotulação algorítmica, neste contexto, não apenas diagnostica, mas contribui para construir a realidade social que pretende descrever.

Por isso, recomenda-se que qualquer implementação de IA na criminologia urbana em Angola seja acompanhada por protocolos rigorosos de auditoria algorítmica, revisão ética e participação comunitária. O envolvimento de representantes locais pode mitigar a imposição tecnocrática de soluções externas e garantir que os modelos respeitem direitos fundamentais, como a presunção de inocência, a não discriminação e o direito à privacidade (Crawford, 2021).

Assim, a inteligência artificial deve ser entendida não como substituto do julgamento humano, mas como ferramenta complementar ao conhecimento empírico e à experiência das comunidades. Uma criminologia urbana crítica, apoiada por tecnologias sensíveis ao contexto, pode contribuir para políticas públicas mais justas e eficazes.

CONCLUSÕES

A aplicação da inteligência artificial (IA) à criminologia urbana em Angola representa uma oportunidade estratégica para a transformação da gestão da segurança pública, especialmente em contextos urbanos marcados por dinâmicas sociais complexas e por limitações estruturais em termos de colecta e uso de dados. Este estudo demonstrou que, mesmo com dados simulados, é possível utilizar modelos computacionais leves, como a regressão Ridge, para prever padrões de criminalidade com alguma acurácia e aplicabilidade operacional.

Contudo, para que essa inovação tecnológica seja eficaz e eticamente aceitável, é fundamental que a sua adopção seja guiada por uma abordagem crítica, interseccional e humanista. A IA deve ser encarada não apenas como uma solução técnica, mas como um instrumento político-social, cujos efeitos podem tanto contribuir para o bem-estar colectivo quanto aprofundar desigualdades preexistentes. A criminologia crítica tem advertido sobre os riscos da tecnocratização da segurança, especialmente quando sistemas algorítmicos operam sobre dados enviesados e reflectem estruturas sociais desiguais (Baratta, 2002; Wacquant, 2009; Eubanks, 2018).

Assim, a previsão algorítmica, embora promissora, deve ser utilizada com responsabilidade, transparência e sensibilidade sociocultural. Deve-se evitar sua instrumentalização para justificar o aumento de práticas de vigilância selectiva ou de repressão concentrada sobre populações já vulnerabilizadas. A eficácia dos modelos não deve ser medida apenas por sua capacidade de previsão, mas também pelo seu impacto social, pelos efeitos distributivos das intervenções que inspira e pela sua coerência com os princípios democráticos e de justiça social.

Para que a IA contribua de forma positiva à segurança pública urbana em Angola, são necessárias várias condições estruturais:

1.      Investimento estatal em bases de dados integradas, confiáveis e auditáveis, respeitando normas de privacidade e protecção de dados pessoais, e promovendo a padronização e actualização sistemática dos registros criminais e contextuais.

2.      Capacitação técnica e ética dos profissionais da segurança pública e dos operadores do sistema de justiça penal, incluindo formação contínua em ciência de dados, ética digital e análise crítica dos algoritmos.

3.      Criação de mecanismos institucionais de auditoria algorítmica, controle democrático e participação cidadã, assegurando que as tecnologias sejam avaliadas quanto a seus riscos, impactos e limitações antes da adoçam em larga escala.

4.      Promoção de parcerias entre universidades, centros de pesquisa e órgãos do Estado, incentivando projectos-piloto, pesquisas aplicadas e a produção de conhecimento situado e adaptado à realidade angolana.

Conclui-se que a inteligência artificial pode desempenhar um papel transformador na criminologia urbana, desde que seu uso esteja ancorado em valores de equidade, justiça social e respeito aos direitos fundamentais. O futuro da segurança pública urbana em Angola não depende apenas de algoritmos, mas sobretudo das escolhas políticas e éticas que orientam sua implementação.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Chandola, V., Banerjee, A., & Kumar, V. (2009). Anomaly detection: A survey. ACM Computing Surveys (CSUR), 41(3), 1-58. https://doi.org/10.1145/1541880.1541882

Eubanks, V. (2018). Automating Inequality: How High-Tech Tools Profile, Police, and Punish the Poor. St. Martin’s Press.

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[1] A principal tese desse risco é que, longe de serem neutros, os algoritmos podem perpetuar e aumentar a discriminação e a desigualdade, especialmente contra grupos já marginalizados. A "caixa preta" dos algoritmos, a sua dependência de dados enviesados e a desumanização do processo decisório são identificados como riscos significativos. (Eubanks, 2018)